domingo, 15 de janeiro de 2012

Entendendo o que realmente diz Paulo em I Coríntios 11.17-34

Pr. José BARBOSA de Sena NETO


O Banquete e a Ceia

A descrição da Ceia do Senhor encontra-se, nas Escrituras Sagradas, em quatro autores diferentes: Mateus (26.17-29), Marcos (14.12-26), Lucas (22.7-23) e Paulo (I Coríntios 11.17-34).

O texto clássico sobre a Ceia do Senhor, porém, é o de I Coríntios 11.17-34, no qual o apóstolo Paulo, diferentemente dos demais escritores inspirados, não apenas descreve a instituição do memorial pelo Senhor, mas encaixa o evento na situação real da Igreja de Cristo e adorna-o de comentários doutrinários.

As fantasias e superstições de líderes evangélicos oriundos da Umbanda ou do Kardecismo e a influência de livros de escritores anglicanos e luteranos, que interpretam de modo místico e sacramental os textos referentes à Ceia do Senhor, principalmente o texto clássico paulino, têm inseminado na comunidade evangélica ideias católicas acerca dos elementos da Ceia do Senhor.

Assim, afigurasse-nos necessário, neste estudo, fazer uma breve análise do texto de I Coríntios 11.17-34 (juntamente com outras duas porções das Escrituras, ambas em I Coríntios, ambas importantes para a compreensão desse texto clássico, uma anterior a ele, 10.14-17, e a outra, posterior, 12.12-13,27, dentro do seu contexto imediato), dissecando-lhe aqueles pontos mais distorcidos pelas seitas “católico-evangélicas”. Cumpre-nos, igualmente, analisar também o texto de João 6.33—58,63, que, embora não se refira à Ceia do Senhor, tem sido alvo de distorções semelhantes.

Observe-se a expressão “comer ... beber indignamente”. “Indignamente” é advérbio de modo. Desempenha a função sintática de adjunto adverbial e não de predicativo do sujeito, um qualificativo. Indica a maneira como alguma coisa é feita. Comer indignamente não é comer (estando) indigno (predicativo), mas é comer (agindo) de maneira indigna (adjunto adverbial). “Indignamente” refere-se a atos, a atitudes, e não a pessoas ou coisas. Uma pessoa pode ser considerada "digna” (adjetivo), mas, ainda assim, em determinada circunstância, agir “indignamente” (advérbio de modo). Da mesma forma uma pessoa “indigna” pode agir “dignamente”.

E é interessante observar que as pessoas que se consideram indignas são geralmente as mais dignas. Por outro lado, as pessoas mais indignas são aquelas que mais se consideram dignas. Os crentes mais consagrados realmente ao Senhor são, invariavelmente, os que se reconhecem mais indignos da misericórdia de Deus e confessam que devem tudo a Sua graça. Já os religiosos fariseus são quase sempre arrogantes e se julgam os mais dignos entre os homens. A nossa indignidade diante de Deus é uma realidade irrefutável e nem podemos esquecer que foi Deus “que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1.12).

O texto paulino não diz que os coríntios eram indignos ou se achavam indignos de participar da Ceia do Senhor, mas que, ao reunirem-se para cear, estavam agindo de maneira indigna. A maneira indigna como eles agiam é que era indigna: além de haver dissensões entre eles, os mais abastados financeiramente levavam abundante provisão de comida e bebida para fazer um verdadeiro banquete antes da Ceia do Senhor e, nessa lauta refeição, cada um comia e bebia o que levava, sem a necessária ordem e sem nenhuma consideração para com os irmãos mais pobres, que, nada tendo para levar, nada comiam e nada bebiam. Nessa desordem, era natural haver, na hora da Ceia do Senhor, pessoas sentindo-se humilhadas e desprezadas!

Era esse o problema dos crentes de Corinto. Tanto que o apóstolo recomenda-lhes que, quando eles se ajuntassem para comer, “esperassem uns pelos outros”, e se alguém tivesse com fome, comesse em casa, a fim de não se reunirem para condenação (10. 33-34). O problema era de fácil solução, portanto. Por sinal, convém não esquecermos que banquete em igreja é quase sempre sinônimo de problema! Por isso é que indaga o apóstolo: “Não tendes, porventura, casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisso não vos louvo” (I Coríntios 11.22).

Em face da maneira indigna como se portavam os coríntios na celebração do memorial da nova aliança, Paulo afirma que não é a Ceia do Senhor que eles comem, mas a ceia deles mesmos. O apóstolo não faz nenhuma restrição ao cerimonial ou à liturgia da celebração empregados por eles. Qualquer que fosse o ritual por eles adotado era vazio com certeza! Não anunciava a morte do Senhor até que Ele venha! Faltava-lhes o “sejam um em nós”. A união pelos laços do amor é que seria a grande mensagem, pois proclamaria ao mundo a transformação de vida neles operada pelo poder do Senhor ressuscitado: “Para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, o és em Mim, e eu, em Ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste”(João 17.21).

Comunhão é união, é identificação de ideias e propósitos, é companheirismo, é parceria. A comunhão do Corpo de Cristo é a integração dos crentes, unidos pelos laços do amor! Participar do “mesmo pão” (I Coríntios 10.17) é sinal de “comunhão” (I Coríntios 10.16). Aquele, pois, que se senta à “mesa do Senhor” (I Coríntios 10.21) e, ao mesmo tempo, nega com seus atos a comunhão com os membros do Corpo de Cristo, não está “discernindo o Corpo do Senhor” (I Coríntios 11.29) e, como consequência, está participando indignamente da comunhão desse corpo. Comer e beber indignamente é fazer como faziam os coríntios, que, dizendo participar do memorial da nova aliança no sangue de Jesus, maltratavam os crentes mais humildes, “não discernindo o Corpo do Senhor’.

Discernindo o Corpo do Senhor

“Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte” (I João 3.14). Todavia, entre os coríntios, havia dissensões, formavam-se partidos, fazia-se acepção de pessoas. Faltava-lhes o amor, “que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3.14), pois desprezavam e envergonhavam membros do Corpo de Cristo. Faltava-lhes discernimento para compreender que “o corpo de Cristo” são os crentes e não o pão da ceia! Não discerniam o Corpo do Senhor, que somos todos quantos temos o Espírito de Cristo (Romanos 8.9). É possível que devotassem grande respeito e veneração aos elementos da ceia (como muitos faz hoje em dia!), mas Jesus não estava no pão e sim nos irmãos, inclusive, e paradoxalmente, naqueles que estavam sendo desprezados e envergonhados. Discernir algo é identificá-lo, distingui-lo de outras coisas. Faltava-lhes discernir que o Corpo de Cristo “é a Igreja” (Colossenses 1.24).

Para Paulo, a expressão “corpo de Cristo” designa sempre a comunidade dos remidos (Romanos 12.5; I Coríntios 12.12-27; Gálatas 3.27-29; Efésios 1.22-23; Colossenses 1.18-24; 3.15). Mesmo o pão da Ceia do Senhor, que representa o corpo físico de Cristo, o Cordeiro de Deus, imolado por nós na cruz, representa também a Igreja, que é o Corpo de Cristo (I Coríntios 10.17; Efésios 1.22-23).

Observe-se a identificação que o Senhor faz de Si mesmo com o Seu povo. É enfática demais para que possa passar despercebida a alguém: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mateus 25.40). Assim também, quando Saulo perseguia os discípulos do Senhor, este, no caminho de Damasco, indagou-lhe: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” (Atos 9.4).

O texto paulino não defende uma ‘teologia sacramental’, onde os elementos da Ceia teriam poderes sobrenaturais, de modo que quem deles come em santidade receberia ricas bênçãos celestiais enquanto que quem deles come estando “indigno”, isto é, estando em pecado (com alguma falha em sua vida), sofreria severo castigo. Ora, o grande mistério de Deus, “que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações”, não é Cristo no pão da ceia, mas é “Cristo em vós (nós), esperança da glória” (Colossenses 1.26-27). O pão representa o Corpo de Cristo, a Igreja é esse corpo. Um é um símbolo, o outro é a realidade!

Disciplinados Pelo Senhor

O apóstolo Paulo explica que se o crente, quando errar, se julgar a si mesmo, vendo onde errou e procurando corrigir-se do erro, não será julgado pelo Senhor. Mas se o crente não se corrige a si mesmo, antes permanece no erro, o Senhor o disciplina, pois quando o Senhor julga o crente é para sua correção, porque o crente, por pertencer a Jesus, não pode ser condenado com o mundo (I Coríntios 11. 31-32). A falta de amor para com os irmãos, a falta de ordem na Igreja e a falta de autodisciplina por parte dos crentes estavam trazendo sobre eles a disciplina do Senhor. (I Coríntios 11.30).

A relação entre Deus e o pecador não convertido é uma relação entre o juiz e o réu. Não há comunhão, não há amor, não há disciplina. Mas, quando o pecador se converte ao Senhor, a sua relação com Deus passa a ser uma relação entre Pai e filho. Uma relação em que há comunhão, amor e disciplina. Para os que estão em Cristo Jesus, já não há “nenhuma condenação” (Romanos 8.1), mas há disciplina! (Hebreus 12.5-8)


Isto é o Meu Corpo

Os crentes genuinamente evangélicos e nós, os crentes reconhecidos no século como Batistas, em particular, temos rejeitado, através dos tempos, não somente a doutrina da ‘transubstanciação’ católica romana (presença real de Cristo na Ceia pela transformação dos elementos pão e vinho no Seu corpo e sangue) como também a da ‘consubstanciação’ luterana (presença real de Cristo na Ceia, pela união de Cristo com os elementos pão e vinho), por entendermos que tanto uma como a outra, embora amparadas por bem elaborados argumentos filosóficos, carecem de fundamento bíblico e, o que é pior, induzem à idolatria.

A assim-chamada ‘Igreja Católica Romana’ afirma: “No santíssimo sacramento da Eucaristia estão ‘contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo’ ”(Catecismo da Igreja Católica, Ed. Vozes-Ed Loyola, p.379 #1374; Conc. De Trento, Denzinger-A Schönmetzer #1651) Afirma, também: “A presença real de Cristo resulta da singular conversão de toda a substância do pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue, ainda que permaneçam as espécies de pão e de vinho. A esta conversão a Igreja católica chama com propriedade (aptissime) transubstanciação.” (Idem)

A encíclica Mysterium fidei, de 3 de setembro de 1965, assinada pelo finado Paulo VI traz novas interpretações. As categorias e a linguagem tridentina marcadas pela teologia escolástica, já se tornaram irrelevantes para o homem moderno. Nos anos 60 foi de grande notoriedade a preocupação por corresponder à mentalidade moderna, dando chance a chamada ‘crise holandesa’, preocupação esta que aflorou de modo muito forte nos Países Baixos. Os teólogos católicos continuaram defendendo que a eucaristia é um evento de salvação em favor dos homens, mas o importante, naquele momento, era “o novo significado e a nova finalidade”. Do pão e do vinho depois da consagração. “Transfinalização e transignificação” seriam para os tempos modernos bem mais adequados para traduzir a assim chamada “transubstanciação”.

A encíclica “Mysterium fidei” veio trazer a modo de confissão da fé católica algo importante com toque suave na mudança da teologia escolástica, cujos tópicos, a seguir, são de fundamental importância: “Deve-se continuar mantendo a linguagem tradicional da Igreja (católica) sobre a presença real eucarística e a conversão. As fórmulas podem ser investigadas e explicadas, mas nunca em sentido diferente ao que foram propostas” (AAS, Acta Apostolicae Sedis, 57 (a965) 758). “Há presença real de Cristo na Igreja (católica), mas a presença de eucarística é “substancial”: ‘Cristo inteiro, Deus e homem, se faz presente’. Não se reduz à presença “espiritual” de Cristo glorificado que existe no cosmos, nem a um sinal da intervenção de Cristo em favor de seus fiéis”. (Mysterium fidei, 764) Sobre as novas interpretações, “Com a transubstanciação, as espécies de pão e de vinho revestem novo significado e têm um novo fim; mas esse novo fim e esse novo significado supõem uma nova realidade ontológica . Porque há transubstanciação, também há transignificação e transfinalização” (Mysterium fidei, 766).

O que podemos observar é que os tratados teológicos romanistas, numa tentativa desesperada para explicar o não explicável, cada vez mais penetram numa emaranhado de opiniões ocas e sem sentido resultantes do ilógico proveniente da interpretação literal das palavras de Jesus ao instituir a Ceia Memorial. O teólogo Jesús Espeja, bastante respeitado nos meios do catolicismo romano, assim afirma: “Os termos ‘transubstanciação’ e ‘transfinalização’ (ou ‘transignificação’) devem ser usados com reserva. O primeiro, porque “substancia” nas ciências positivas já não tem o significado que teve na filosofia grega que serviu de base à teologia escolástica, comum aos padres conciliares de Trento. A “transfinalização” (ou “transignificação”) corre o perigo de ser imprecisa para expressar o realismo da presença” (Jésús Espeja, Sacramentos, Ed. Vozes, Petrópolis-RJ, 1992, p. 73). Por outro lado, muitos grupos evangélicos têm para com os elementos da Ceia do Senhor (“santa ceia”, para eles) uma devoção igual à que os católicos romanos têm para com a hóstia consagrada. Um verdadeiro culto de “latria” (culto de adoração suprema a Deus e à hóstia consagrada).

A assim-chamada ‘Igreja Católica Romana’ nos assegura que após a oração consecratória sobre o pão e o vinho, são transformados em alguma coisa diferente: corpo e sangue. Entretanto, a linguagem empregada nos textos de Mateus 26.26-29; Marcos 14.22-24; Lucas 22.19-20 e I Coríntios 11.23-26 não conduz a esta conclusão! O que podemos perceber é que era ação de graças e louvor rendidos a Deus, exatamente como o Senhor Jesus fez, quando alimentou a multidão, dando graças pelos pães e pelos peixes (João 6.11). O que nos chama à atenção são as palavras de Jesus depois da ação de graças: “Isto é o meu corpo... Isto é o meu sangue, o sangue da aliança”. Como poderia Jesus dizer que em Suas mãos estavam o Seu próprio corpo e o Seu próprio sangue, quando Ele ainda estava vivo no meio dos discípulos, habitando o mesmo corpo com o qual nascera da bendita Virgem Maria e com o qual andara e ainda estava andando na companhia dos discípulos?

Portanto, a assim-chamada “transubstanciação” (ultimamente travestida de “transfinalização” ou “transignificação”), fere frontalmente a inteligência das pessoas sensatas! O católico não procura a razão lógica da sua fé, crê em tudo que os seus teólogos lhe enfia garganta abaixo, pois se “Roma locuta, causa finita”, se aceita tudo sem contestação, daí o significado da palavra “fiel” que o católico recebe!

Outro fato muito interessante para o qual devemos lançar nossos olhares é o fato de Jesus, após ter abençoado o vinho, o tenha chamado de “o fruto da videira”! (Mateus 26.29; Marcos 14.25; Lucas 22.18). Isso demonstra de forma cristalina que a substância do vinho não havia mudado! E o apóstolo Paulo age do mesmo modo, quando chama os elementos da Ceia do Senhor de pão e de vinho!(I Coríntios 11.26). As narrativas da instituição da Ceia do Senhor e na Carta de Paulo aos Coríntios tornam claro, cristalinas, que o Senhor Jesus falou em sentido figurado, quando disse: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue...” (Lucas 22.20b). E Paulo, escrevendo a sua Primeira Carta aos Coríntios, após 25 anos que Jesus instituiu a Ceia, cita Jesus dizendo: “Este cálice é o novo testamento (ou nova aliança) no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes (manducação) este pão e beberdes (potação) este cálice anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (I Coríntios 11.25-26). Notemos que nestas palavras Ele usou uma dupla figura de linguagem. O cálice representa o vinho e o vinho é chamado de novo testamento ou nova aliança. O cálice não era literalmente a nova aliança, embora definitivamente declarado, como o pão foi declarado ser o Seu corpo. Eles não beberam o cálice literalmente, como também não beberam literalmente a nova aliança!

Como é ridículo dizer que eles assim o fizeram! O seu corpo também não foi o pão literal, nem o vinho, seu sangue literal. Depois de dar o vinho aos Seus discípulos Jesus disse: “porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o Reino de Deus” (Lucas 22.18). Assim o vinho, mesmo que dele Jesus tenha tomado e depois dado aos Seus discípulos, continuou sendo o fruto da videira! Nenhuma “transubstanciação” ou “transfinalização” ou “transignificação” houve na substância! E isso aconteceu depois da oração de consagração que Jesus fez, quando a assim-chamada ‘Igreja Católica Romana’ supõe e ensina que aconteceu a alteração, mesmo tendo Jesus e Paulo declarado que os elementos, a substância, continuam sendo pão e vinho!

Voltamos a enfatizar que na ocasião em que estas palavras foram ditas, o pão e o vinho estavam sobre a mesa, DIANTE DELE, e Ele estava assentado à mesa em Seu corpo, como qualquer pessoa viva! Lembremo-nos que a crucificação ainda não havia acontecido! Eles – Jesus e Seus discípulos – comeram a Ceia antes da crucificação! Portanto, não podemos fazer algo em memória de alguém que está presente, como a assim-chamada ‘Igreja Católica Romana’ faz, dizendo que Cristo está presente na missa! Notemos que ao invés de corpo, sangue, alma e divindade nos elementos, Paulo vê pão e cálice. Se o apóstolo Paulo cresse na presença real, corporal de Cristo sob as aparências do pão e do vinho, com certeza ele não teria dito: “até que Ele venha”, pois Jesus já estaria ali presente! O próprio Jesus ao afirmar: “... fazei isto em memória de Mim” (Lucas 22.19), teria excluído “ipso facto” a presença! Esta é a lógica! Da mesma forma se no pão Jesus se tornasse física e corporalmente presente – como afirma a assim-chamada ‘Igreja Católica Romana’ “... debaixo destas (espécies do pão e do vinho) está Cristo completo, presente na sua realidade física, mesmo corporalmente...”(Paulo VI, in Mysterium fidei, 46) evidentemente a Ceia não em memória!

A Ceia do Senhor instituída por Jesus não foi um tipo de operação mágica, mas exclusivamente um memorial! E com que finalidade? Com o objetivo de convocar todos os cristãos, através dos séculos, a que se lembrassem da crucificação do Senhor Jesus e de todos os benefícios dele proveniente! Um memorial não representa a realidade, como no caso de serem o pão e o vinho o Seu verdadeiro corpo e sangue, mas uma coisa totalmente diferente, que serve apenas como lembrança da coisa real. É perfeitamente óbvio a qualquer leitor observador inteligente que a Ceia do Senhor foi especialmente instituída como uma simples festa memorial. De maneira alguma, como uma ‘reencarnação’ de Cristo! Segundo a assim-chamada ‘Igreja Católica Romana’, aquilo que os sentidos apreendem depois da consagração do pão e do vinho, na assim chamada “transubstanciação”, são os acidentes. Ora, quando Jesus transformou a água em vinho, em Caná da Galiléia, as características da água desapareceram, porque a água deixou de existir, conforme João 2.9-10. Esse episódio é bastante claro à nossa inteligência!

A posição do Luterianismo não difere muito da posição católico-romana. E os próprios luteranos confessam essa realidade: “Nossas igrejas são falsamente acusadas de ter abolido a missa. Porque a missa é ainda retida entre nós e celebrada com grande reverência” . (Confissão de Augsburgo, de 1530, art. II, segunda parte).

A “transubstanciação” católico-romana e a “consubstanciação” luterana são, em síntese, a mesma coisa, conforme vemos no “Relatório da Comissão Mista Católico-Luterana sobre a Eucaristia”: (A Ceia do Senhor, Ed. Sinodal, 1978, pp. 23-25)

• “cristãos católicos e luteranos confessam em comum que a presença eucarística do Senhor Jesus Cristo visa o recebimento do crente, não estando, porém, limitado ao momento do recebimento, e igualmente não dependendo da fé do receptor por mais que ele seja orientada para esta”;
• “a discussão ecumênica demonstrou que essas duas posições não mais precisam ser consideradas como contraposições mutuamente excludentes (transubstanciação e consubstanciação). A tradição luterana consente com a tradição católica na afirmação que os elementos consagrados não continuam sendo simples pão e vinho, mas em virtude da palavra criativa são distribuídas como corpo e sangue”;
• “segundo a doutrina católica, o Senhor proporciona sua presença eucarística para além da realização do sacramento, enquanto persistem as formas de pão e vinho. Correspondentemente, os fiéis são convidados a prestar veneração a este santíssimo sacramento aquele culto de latria que é devido ao Deus verdadeiro”; (...) “também para eles (os luteranos) culto, veneração e adoração são adequados tanto tempo quanto Cristo permanece sacramentalmente presente”.

Ora, para quem adore a Jesus e creia que Ele está de alguma forma, presente nos elementos da Ceia, a consequência natural será a adoração desses elementos. E é exatamente isso que fazem os católicos romanos, quando adoram Jesus na hóstia consagrada. E é exatamente isso que fazem os luteranos em relação aos elementos da sua eucaristia, prestando-lhes “culto, veneração e adoração” enquanto, segundo o entendimento luterano, Ele permanece presente nesses elementos.

Alguns grupos evangélicos existentes entre nós têm para com os elementos da Ceia do Senhor (por alguns deles chamada de “santa ceia”) um forte sentimento de “latria”, de modo que lhes prestam um verdadeiro “culto latrêutico”, semelhante ao que o catolicismo romano devota à hóstia consagrada. Em face dessa veneração, as sobras de pão e de vinho ‘consagrados’ são para eles mantidas intocáveis e ou são ritualisticamente enterradas ou ficam guardadas até que, cobertas de mofo, sejam comidas pelos bichos, quando então, e somente então os vasos onde estiveram depositados podem ser lavados. Mas isso é idolatria! E idolatria que se vem infiltrando no seio da comunidade evangélica! E aqueles que hão de dar contas do rebanho permanecem indiferentes! O culto aos elementos da Ceia, qualquer que seja a sua forma, é idolatria. Tanto faz estar amparado na teoria da ‘transubstanciação’ como na tese da ‘consubstanciação’, ou simplesmente escorada na palavra carismática do líder. E os idólatras não têm parte no reino de Deus (I Coríntios 6.10). É por isso que o texto de I Coríntios referente à Ceia do Senhor começa com esta advert6encia: “Portanto, meus amados, fugi da idolatria”. (I Coríntios 10.14).

O que, realmente, Evangelho João Capítulo 6 ensina.

O texto de João 6.33-63, mormente os versículos 33-58, que o catolicismo romano e as seitas católicas utilizam como pretensa base bíblica para a tese da ‘transubstanciação’ ou da ‘consubstanciação’, não se refere à Ceia do Senhor, mas à conversão pela fé em Jesus. Os teólogos católicos, como é do seu hábito, transgridem na norma primacial da compreensão da Bíblia Sagrada ou de qualquer obra literária: a de interpretar o texto pelo contexto. Isolam parte do texto do discurso de Jesus feito na sinagoga de Cafarnaum e dão uma interpretação literal às palavras de Jesus, mas, se fossem honestos, deveriam adotar o mesmo critério em todo o discurso, pois várias vezes Jesus usou a expressão pão. Ao admitir a literalidade do vocábulo pão, certamente Jesus teria descido do céu na forma material, isto é, em forma de pão! E quem comesse literalmente desse pão viveria para sempre. Por que não se há de ser lógico, admitindo-se igual sentido figurado quanto aos vocábulos carne e bebidas?

Este texto tem sido utilizado para justificar a tese pagã-católico-romana de que, para ter a vida eterna, o pecador tem de comer (manducação) de Cristo no pão da ceia e beber (potação) o sangue de Cristo no vinho da Ceia. Comer e beber carne e sangue humano é coisa repulsiva e abominável a Deus, e também a qualquer pessoa mentalmente sã, especialmente aos judeus. Essa prática é contrária às Escrituras Sagradas e ao senso comum. (Levítico 17.10; Deuteronômio 12.16). Na lei judaica havia severa penalidade contra quem comesse sangue.

Comer a carne e beber o sangue de Jesus é vir a Ele, é crer nEle! Ele próprio o disse: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em Mim tem a vida eterna” (João 6. 47). Comparem-se os versículos 40 e 54. A mensagem é a mesma, sendo que, no verso 54, a mensagem do verso 40 é repetida de maneira figurada. Mas mente carnal é apegada à realidade física e incapaz de perceber a realidade espiritual. Quer ver e apalpar para crer. Precisa mastigar (manducação) e engolir (potação). O Deus Espírito não lhe basta! Precisa de um deus físico, material, palpável, mastigável até!

O mais impressionante é que quando Jesus quis falar aos Seus discípulos sobre assuntos importantes, isolou-Se com eles (Mateus 10.1-42; 18.1-35 dentre outras). Havia uma diferença enorme entre Jesus ensinar aos Seus discípulos e pregar às turbas (Mateus 11.7). Ao povo Ele pregava a Palavra, comparando-a a semente, para que se convertesse e aos Seus discípulos favorecia explicações bastante pormenorizadas que os preparassem para bem melhor servi-Lo (Mateus 13.10-23).

Outro detalhe importante, é que no Evangelho de João a Ceia do Senhor não é mencionada nesta passagem e nem está em seu contexto e nem em todo o Evangelho segundo João a ela se refere, pois se houvesse algum vínculo com o sermão na sinagoga de Cafarnaum com a Ceia do Senhor, certamente João teria mencionado, pois João dos quatro evangelistas é o mais meticuloso, mas ele não alude nada! É o único evangelista que não menciona nada, absolutamente nada, a respeito da instituição da Ceia por Jesus!

Portanto, comer a carne de Cristo e beber o Seu sangue é crer nEle! O “comer” e “beber” são figuras do crer! Quem crê no Senhor Jesus torna-se um com Ele, pois Paulo escreveu: “Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito” (I Coríntios 6.17). Faz-se habitação do Espírito de Cristo (Romanos 8.9-11). Cristo está em nós porque nEle temos crido!

O grande mistério de Deus, que esteve oculto dos séculos e das gerações, é realmente Cristo em nós, “a esperança da glória” (Colossenses 1.26-27). Mas não O recebemos ingerindo-O em forma de pão de farinha de trigo e vinho. Ou “ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre e é lançado fora?” (Mateus 15.17). Nós, os crentes, não praticamos a teofagia!

Conclusão

Portanto, finalizando, a interpretação do texto de João 6 como referente à Ceia do Senhor, absolutamente contraria aos princípios da hermenêutica sadia, tem como objetivo apresentar um texto bíblico de defesa da tesa pagã sacramentalista, da qual depende a força e importância do clero católico romano.

A tese sacramentalista reivindica que a graça de Deus seria transmitida aos homens através dos ‘sacramentos’, que seriam os instrumentos necessários dessa transmissão. Assim é que o pecador, para receber a graça de Deus, ficaria na dependência dos ministros dos sacramentos, que ficariam sendo, na realidade, a instância nessa questão. Mesmo quando alguém argumentasse que, segundo as Escrituras Sagradas, somos salvos pela graça, por meio da fé, eles retrucariam, dizendo: ‘É pela graça, sim, mas para receber a graça, você precisa dos sacramentos, e como quem tem os sacramentos somos nós, você precisa mesmo é de nós, ministros dos sacramentos’!

Que Deus nos livre de tais heresias! Pensemos todos nisso! Leia e releia este estudo, demoradamente, para que possamos participar “dignamente” da Ceia do Senhor!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MAIS UM PERÍODO DE BOAS FESTAS....

Pr. José Barbosa de Sena Neto


Dezembro chegou! Ano que se encontra no seu final passou célere, extremamente veloz! Parece que foi ontem que estávamos descansando, em família, desfrutando o feriado do primeiro dia do ano! Muitos planos, muitos projetos!

Agora, tudo se repete. Novamente as cidades se engalam para o período natalino, praças, lojas, igrejas, indústrias, comércio, colégios e casas, se enfeitam cada um a seu modo e dependendo das suas condições e portes financeiros, com algo alusivo ao Natal. Tudo é lembrado, jantares preparados com antecedência, nos mínimos detalhes, presentes adquiridos a dedo, para as faixas etárias, árvores de Natal armadas e enfeitadas e até mesmo expostas no rall das nossas Igrejas, mormente expostas nas mais tradicionais, e, nas portas de nossas casas, não podem faltar a ‘coroa de azevinho’, a ‘bota vermelha’, e em algumas de nossas casas tidas como cristãs mais tradicionais, para satisfazer o sonho inocente de nossas crianças, de nossos filhos e netos, se afoitam a introduzir a figura dócil do ‘Papai Noel’, para o brilhantismo da ‘troca de presentes’ – ápice da nossa festa familiar, antes do já tradicionalismo ‘jantar natalino’! Tudo muito bonito, tudo muito aconchegante, tudo muito familiar, se tudo isso não fosse herético, nada tendo a ver com o Nascimento de Jesus!

Sei que mais uma vez irei chocar ou escandalizar a muitos dos nossos queridos, mas minha consciência não me permite ficar calado diante de tantas coisas pagãs que celebramos todos os anos, em nossas igrejas e em nossas casas. E muitos ficam irritados quando combatemos esta gama de rituais, que nada tem de cristãs. Em meu livro “Confissões Surpreendentes de um ex-Padre”, já na quarta edição, realço em um apêndice, dedicado a uma análise histórica sobre o Natal, e lanço a pergunta: “Natal – festa cristã ou pagã cristianizada?” Não tenho parado de receber críticas após o lançamento de meu livro, desde a sua primeira edição, sobre esta minha pergunta chocante, realçada com profunda análise bíblica e histórica. Uma das peculiaridades do cristão batista é a plena liberdade de consciência e livre acesso de cada um à Verdade revelada nas Sagradas Escrituras, a única regra de fé e prática.

O Natal, como nós o conhecemos, nunca foi celebrado desta forma pela Igreja Primitiva. Tampouco foi festejado durante os primeiros três séculos da Igreja Cristã. A razão para o natal ter se tornado um “dia santo” não diz respeito à Bíblia Sagrada. As Sagradas Escrituras não explicitam a data do nascimento de Jesus. Em nem um lugar da Bíblia somos incentivados a celebrar o Natal, como hoje ele se evidencia entre nós. O Natal que aí está não é a mesma coisa que relembrarmos o Nascimento de Jesus. Um é diametralmente diferente do outro. Examine. Pesquise. Na lembrança do Nascimento de Jesus, usamos os nossos púlpitos para relembrarmos sobre para que nasceu o Salvador. Temos nossas cantatas que relembram e realçam de forma emocionante este fato histórico que mudou o mundo. Já nas comemorações do Natal, nem mesmo o aniversariante é lembrado!...

O dia em que o Natal é celebrado e comemorado (25 de dezembro) e quase todos os costumes associados a ele, tem origem na adoração pagã de ídolos. Em meados do século IV, várias igrejas ocidentais de língua latina passaram a celebrar o Natal. Durante o século V, essa festividade se tornou um “dia santo” da Igreja Católica Romana. No ano 534 d.C, o Natal foi reconhecido feriado oficial do estado romano. A fusão com o paganismo como ‘estratégia missionária’ foi claramente revelada pelas instruções do papa Gregório Magno aos missionários no ano 601: “Pelo fato de eles – os pagãos – sacrificarem bois a demônios, alguma celebração deve lhes ser dada em troca dessa... Eles devem celebrar uma festa religiosa e adorar a Deus mediante sua celebração, de forma a manterem os prazeres externos e poderem, rapidamente, receber alegrias espirituais”. Por falta de espaço não poderemos entrar em detalhes históricos.

Mas o Natal é uma mentira ‘cristianizada’ pela Igreja de Roma. E muitos de nós sabemos disso e persistimos no incentivo ao erro. O Cristianismo é a religião da verdade. Deus não pode mentir. Toda a verdade e todo o conhecimento procedem de Deus. Jesus Cristo é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14.6). O Espírito Santo é chamado “o Espírito da verdade” (João 167.13). O Evangelho é chamado “a palavra da verdade” (Efésios 1.13). Deus ordena: “Não dirás falso testemunho contra o próximo o teu próximo” (Êxodo 20.16). Paulo nos diz para seguirmos “a verdade em amor” (Efésios 4.15a) para que os cristãos deixem a mentira e “fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Efésios 4.25). Nós, os cristãos bíblicos devemos ser sal e luz do mundo (Mateus 5.13,16), devemos testemunhar ao mundo falando e vivendo a verdade. Perguntamos: a celebração do Natal é compatível com nossa responsabilidade de falar e viver a verdade perante o mundo?

Não é verdade que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro. Segundo a Bíblia, Jesus não nasceu nesse dia: “Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho” (Lucas 2.8). É do conhecimento público que os pastores na Palestina voltavam dos campos antes do inverno. A estação chuvosa na Judéia começa no fim de outubro ou o início de novembro. Os pastores já teriam voltado com seus rebanhos para as aldeias antes do início da estação de chuvas. Portanto, Jesus nasceu bem antes do final de outubro ou bem antes das primeiras semanas de novembro. É evidente que Jesus não nasceu no meio da estação do inverno. Mas, as Escrituras nos dizem em que estação do ano Ele nasceu? Sim, as Escrituras Sagradas indicam que Ele nasceu no outono, mas insistimos na data pagã que a Igreja de Roma ‘cristianizou’.

O ministério público de Jesus durou três anos e meio e Seu ministério teve fim no tempo da Páscoa (João 18.30), que ocorre durante a primavera. Portanto, três anos e meio marcariam o início do ministério no outono daquele ano. Quando Jesus começou seu ministério, Ele contava 30 anos de idade (Lucas 3,23). Esta era a idade para o sacerdote começar a exercer seu ministério sob o Antigo Testamento (Números 4.3).

Se você mente a respeito do nascimento de Jesus e fez vistas grossas em relação à mitologia pagã, quando você falar a seu vizinho incrédulo sobre a ressurreição de Jesus, por que ele deveria acreditar em você? Ao celebrar a festa pagã do Natal, com todos os seus símbolos pagãos, você dar margem para que seu vizinho incrédulo não creia quando você lhe falar sobre a ressurreição. Porque ele poderá dizer: “você fala e vive uma mentira acerca do nascimento de Jesus, então você não é confiável para falar a respeito da ressurreição de Jesus”. E, afora, saia dessa... A Igreja Cristã bíblica deve parar de macular a Palavra de Deus inspirada e infalível ao posicionar fantasias humanas ao lado de revelação divina. O Natal contradiz, pois, a narrativa bíblica do nascimento de Jesus! Confiram isso.

NOSSA ESPERANÇA NA VIDA PORVIR

Pr. José Barbosa de Sena Neto

Em o Novo Testamento, a idéia da imortalidade se torna patente e concreta em Jesus Cristo. Segundo Pedro, Deus, de acordo com “a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (I Pd. 1.3), e, segundo Paulo, Jesus Cristo “destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (II Tm 1.10).

A ressurreição de Cristo constitui a garantia da realidade da vida futura. Esta é a razão por que Paulo sabe que a nossa casa terrestre, isto é, se este corpo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, mas casa eterna nos céus.

Para o apóstolo Paulo, o morrer não significa ser despido da vida, como parece, mas é o meio pelo qual somos absorvidos pela vida. Para nos dar a garantia deste fato ou desta realidade transcendente, Paulo declara que Deus nos preparou para isto e nos deu o penhor do Espírito.

Tão certo está o Apóstolo Paulo, que chega a afirmar: “Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor”(II Cor. 5.8). Estas palavras nos dão a medida da certeza de Paulo quanto à vida futura, pois ele sabe, pela fé, que logo após a morte estará com o Senhor, na posse do pleno gozo e no gozo da plena consciência.

A passagem de Apocalipse 21.1-8, nos mostra que, no além-túmulo, a vida com Cristo não conhecerá lágrima, nem morte, nem luto, nem pranto, nem dor. É vida de gozo, de paz e de alegria. Entretanto, o crente para gozar destas bênçãos, não precisa aguardar a morte e a vida que se lhe segue, pois a graça de Deus, já nesta vida, faz dele “nova criatura” ( II Cor. 5.17)

O crente é renascido e não deve conformar-se com este mundo (Rm 12.2), mas deve despojar-se do homem velho que se corrompe e renovar-se (Ef. 4.22-23), pois ele já se despiu do velho homem e se renovou para o conhecimento daquele que o criou (Col. 3.10).

Não é lógico – e muito menos bíblico -, que o homem interior, que se renovou pelo Espírito de Deus, deixe de existir após a morte. Que sentido teriam, para ele, a santificação e o desejo de aperfeiçoar-se espiritualmente?

Devemos dar graças a Deus por ter ele revelado, na sua Palavra, as verdades que se relacionam com a vida futura ou com a imortalidade. Sem esta revelação, ficaríamos tateando apenas nas nossas experiências limitadas, e a nossa certeza, então, seria muito relativa. Agora, não. Agora, temos a certeza que Cristo nos dá não só com o seu ensino, mas, sobretudo, com a sua vitória sobre a morte vencendo-a pela ressurreição.

E o vidente de Patmos assim nos assegura: “Eis que faço novas todas as cousas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras... Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida. O vencedor herdará estas cousas, e eu o serei Deus, e ele me será por filho” (Ap. 21.5-7).

Portanto, pois, “sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”! (Ap. 2.10).

quarta-feira, 9 de março de 2011

IDENTIFICANDO A IGREJA DE CRISTO


Pr. José Barbosa de Sena Neto


A palavra “Igreja” perdeu o seu significado nos dias atuais em relação ao seu sentido original nos tempos da Igreja Primitiva. Trata-se de uma palavra que precisa ser redefinida na sociedade moderna. Existe um grande número de grupos que se chama de “igreja” mas que, certamente, não são nada daquilo que o Senhor disse que construiria, e sequer chegam à medida do que está revelado em o Novo Testamento como padrão para a Igreja de Deus.
Esses falsos conceitos levam os indivíduos a se desviarem da verdade e a evidenciarem algo que não representa a santidade divina. Falsos conceitos e doutrinas equivocadas precisam ser arrancados pela raiz e destruídos, se é que desejamos a presença do Senhor em nosso meio. Somente quando os padrões de vida de Jesus forem restaurados em nós é que a presença do Senhor se fará gloriosa no seio da Igreja. Para isso, precisamos identificar o que a Igreja não é. Caso contrário, continuaremos vivendo algo que não produzirá os resultados almejados por todos nós.
Em primeiro lugar a Igreja não é um templo material. A palavra igreja nunca é usada na Bíblia referindo-se a um templo físico. Veja Atos 2.47; 7.38; 8.1-3; 11.22-26; 12.1-5; 15.3, 4, 22, 41; 18.22. Nos versículos citados, podemos observar que o Senhor adicionava pessoas (crentes) à Igreja. Herodes ameaçou a Igreja (convertidos ao evangelho). A Igreja foi perseguida. Paulo saudava a Igreja. A Igreja tinha descanso. Tal linguagem não poderia se referir a um templo físico! Somente a um grupo de pessoas, a Igreja viva. São as tradições dos homens que aplicam o termo “igreja” a templos materiais. “Nós vamos à igreja”, isto é, vamos ao templo onde se reúne a igreja.
O Senhor não disse que construiria um templo quando afirmou que edificaria a Sua Igreja e que as portas do inferno não haveriam de prevalecer contra ela. Com certeza Satanás prevaleceria contra estruturas físicas. Isso é claro visto que tantos templos foram destruídos na história da humanidade. No entanto, mesmo com todas as perseguições e sangrentas investidas contra a Igreja, ela não foi destruída.
Em segundo lugar, a Igreja não é uma denominação. A Igreja não é uma denominação, uma seita ou organização eclesiástica. As igrejas que se multiplicam por aí afora, com os seus nomes variados e esdrúxulos e que dizem ser a Igreja de Jesus, não são necessariamente a Igreja Dele. Cristo disse que edificaria a Sua Igreja, e não um monte de igrejas como vemos hoje, muitas ali na primeira esquina. Penso que o denominacionalismo é contrário às Escrituras. As denominações existem pela vontade permissiva de Deus. Entretanto, algumas acabam por promover, muitas vezes, as divisões entre os homens. Não quero aqui dizer que todas as denominações são más. Apenas mostrar que Jesus não veio dar início a uma denominação. Ele veio, sim, para cumprir a vontade de Seu Pai e para ser a Cabeça da Igreja.
As denominações são geralmente formadas por um ‘avivamento’ ou uma ‘restauração’. As pessoas que se ajuntam neste mover de vidas passam por ‘experiências’ as mais extravagantes possíveis. No entanto, existem aquelas pessoas que não ‘experimentaram’ mudanças e não aceitam tais mudanças. Começa-se, portanto, uma série de disputas até que se culmina numa divisão. As pessoas que saem, geralmente adotam o nome da ‘experiência’ que vivem naquele momento. O resultado é uma nova denominação.
Vejamos, então, o que a Igreja é dentro do ponto de vista de Deus, o qual deve ser o nosso também: podemos, portanto, afirmar que a Igreja é a vontade de Deus. Ela é o fato central da vontade de Deus, não é parêntesis na história que veio a existir simplesmente por causa da cegueira dos judeus. Deus cegou o entendimento dos judeus para que pudesse dar continuidade aos Seus planos para a Igreja.
Deus tem um padrão para a Igreja. A verdadeira Igreja de Jesus deve seguir esse padrão divino: uma forma de vida que agrade a Deus e que deve ser vivida por todos os que forem salvos por Ele. Vejamos o que nos diz a Palavra de Deus: “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso também na Escritura contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido” (II Pedro 2.4-6). Falaremos, noutra oportunidade, sobre o padrão de Deus para a Sua Igreja, hoje.

COMO O CORDEIRO DE DEUS, JESUS, PARTICIPOU DA PÁSCOA DOS JUDEUS?


Pr. José Barbosa de Sena Neto
Na histórica controvérsia havida nos primeiros séculos da era cristã entre gregos e latinos, estes defendiam a tese de que Jesus teria comido do cordeiro pascal, após o pôr do Sol do dia 14 de Nisã, de modo que Sua crucificação teria sido no dia 15, primeiro dia da festa da Páscoa. Os gregos, ao contrário, afirmaram que Jesus, que é a nossa Páscoa, não teria comido do cordeiro pascal, mas, na qualidade de verdadeiro Cordeiro Pascal, teria sido crucificado na hora costumeira do sacrifício do cordeiro. Vamos verificar com quem está com a razão.
A data da instituição da Ceia do Senhor depende diretamente da data de Sua crucificação. Se Ele tiver sido crucificado no dia 15 de Nisã, a Sua Ceia Pascal terá sido instituída nesse mesmo dia 15, após o pôr do Sol do dia 14 de Nisã, fora do contesto da Páscoa judaica.
Em João 18.28 lemos que, quando, de manhã, o julgamento de Jesus estava terminando (e Ele havia ceado na noite anterior!), os judeus ainda não tinham comido a páscoa: “Depois levaram Jesus da casa de Caifás para a audiência. E era pela manhã cedo. E não entraram na audiência, para não se contaminarem, mas poderem comer a páscoa”. Em João 19.14-16 lemos que Jesus foi julgado no dia da “preparação da páscoa” (à hora sexta) – ao meio dia), isto é, no dia 14 de Nisã, antes do primeiro dia dos ázimos: “E era a parasceve pascal (a preparação da páscoa) e quase à hora sexta...”.
Tanto as grandes festas de Israel como o Dia da Expiação erma figuras proféticas de fatos referentes ao Messias e que, a exemplo das próprias festas, ocorriam “ao seu tempo determinado (Levíticos 23.4). Jesus havia predito que Sua morte se daria na Páscoa: “Bem sabeis que daqui a dois dias é a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado” (Mateus 26.2). Na Páscoa, sim, mas antes da festa! Depois os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo reuniram-se na sala do sumo sacerdote, o qual se chamava Caifás. E consultaram-se mutuamente parta prenderem Jesus com dolo e o matarem. Mas diziam: Não durante a festa, para que não haja alvoroço entre o povo” (Mateus. 26.3-5). E assim O prenderam antes da festa, que começava com a ceia pascal. E essa decisão foi tomada a partir de uma profecia do sumo sacerdote Caifás (João 11.47-53).
A Páscoa como sacrifício do cordeiro, era o dia 14 de Nisã (“No mês primeiro, aos catorze do mês, pela tarde, é a páscoa do Senhor”. Levíticos 23.5), mas a festa a que se chamava Festa da Páscoa começava no dia 15 de Nisã, com a ceia pascal. Jesus foi preso, julgado e executado na cruz antes da festa! Morreu na cruz no dia 14 de Nisã, na sexta-feira, ao crepúsculo da tarde, no momento profeticamente estabelecido na Lei para a morte do cordeiro pascal. Não há sombra de qualquer dúvida!
“No Gr secular, paraskeuè se acha no sentido geral de “preparação”, mas o NT emprega o substantivo paraskeuè sempre como expressão de tempo, para indicar o “dia da preparação” antes de Um Sábado ou Festa da Páscoa: Mateus 27.62; Marcos 15.42; João 1914, 31,42” (Colin Brown, Dicionário Internacional de Teologia do NT, Ed. Vida Nova, Vol. III, p. 784). Observe-se bem que a palavra paraskeuè significa preparação em sentido geral e em todos os textos do NT em que ela aparece refere-se sempre ao dia 14 de Nisã dia da “preparação da Páscoa”, dia em que era imolado o cordeiro, preparada a refeição, removido o fermento das casas, etc.
Nos anos em que o dia 14 de Nisã caia numa sexta-feira, com a ceia pascal caindo no Sábado – o qual quando uma dessas “santas convocações” coincidia com um sábado semanal, regular, dava-se-lhe o nome de “Sábado Grande”, dia de descanso legal, como é o caso do sábado posterior à crucificação de Jesus – aquela sexta-feira era tanto o dia da preparação da Páscoa (João 19.31) como véspera e preparação do sábado regular (Marcos 15.42).
Que Jesus morreu numa sexta-feira ninguém questiona, pois o dia seguinte à Sua morte era sábado, conforme se lê em João: “...para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação, pois era grande o dia de sábado...” (João 19.31). Mas aquele não era um sábado comum, era um Sábado Grande. E sábado grande era aquele sábado semanal que coincidia com um dia de “santa convocação”. Ora, como no mês de Nisã as “santas convocações” aconteciam nos dias 15 e 21 (primeiro e oitavo dia da Páscoa), aquele sábado não podia ser o dia 16 de Nisã, que não era dia de “santa convocação”. Tinha de ser o dia 15 de Nisã, primeiro dia dos ázimos, primeiro dia da Festa da Páscoa, dia de “santa convocação”, dia da ceia pascal, da qual Jesus NÃO PÔDE PARTICIPAR, naquele dia, por haver, na qualidade de Cordeiro de Deus, sido imolado na véspera, 14 de Nisã, dia da preparação da Páscoa!
Não há como contestar: Jesus não participou da Páscoa legal dos judeus, porque Ele mesmo, o verdadeiro Cordeiro pascal (I Coríntios 5.7), morreu no dia e hora profeticamente revelados nas prescrições da Páscoa: 14 de Nisã, ao crepúsculo da tarde! Sim, Jesus expirou na cruz no mesmo dia e hora em que no Templo se imolavam os cordeiros pascais, foi crucificado no dia que o cordeiro pascal era oferecido, e ressuscitou no dia em que as primícias da primeira colheita eram apresentadas, as primícias dos que dormem!
Na ocasião marcada para a ceia pascal, Jesus “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29) já estava no túmulo! A celebração da Páscoa judaica perdera a sua razão de ser! Os cordeiros pascais, figuras do Cordeiro de deus, já não deveriam ser imolados cada ano! A realidade que eles figuravam havia chegado! E, em chegando a realidade, os ritos legais, que têm somente “a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas” (Hb 10.1), haviam-se tornado antiquados, perdendo completamente o valor! “Porque Cristo, nossa páscoa, foi crucificado por nós”! (I Coríntios 5.7b)
“A festa da Páscoa começava no dia 15 de Nisã, sendo o cordeiro sacrificado na tarde do dia 14. Contudo o dia da semana variava com a lua nova. Se Jesus comeu a ceia regular da Páscoa, foi crucificado no dia 15 de Nisã. Se comeu uma ceia no dia anterior, e se foi crucificado na hora do sacrifício do cordeiro, então o dia foi, então, o dia 14 de Nisã. Neste caso ele não comeu, de fato, a Páscoa” (S.L.Watson e W.E.Ellen, Harmonia dos Evangelhos , CPB, 1964, 4ª edição, pp. 243-244). Que maravilha!